SESSÃO DE LITERATURA: DOIS VAGABUNDOS

Sessão de Literatura

Neste sábado nossa coluna literária traz mais um belo texto da escritora Viviane de Freitas*. Mês que vem tem mais!

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DOIS VAGABUNDOS

Os dois viviam pelo bairro há anos, andavam juntos, colados, pra lá e pra cá. Não se desgrudavam pra nada, nem em dia de chuva forte. Os moradores mais antigos estavam acostumados, os chamavam de Preta e Preto, e ajudavam como podiam. Vivendo da caridade alheia, sobreviviam a dias improváveis. Ganhavam restos de comida dos restaurantes, pedaços de pizza nos finais de semana, frutas passadas da quitanda, cobertores velhos no inverno. Mesmo assim, o estômago ainda roncava, a barriga colava nos ossos e era possível ver a costela sob a pele suja. Quando a providência não vinha, reviravam o lixo das casas à procura de sobras do jantar.

A praça era o endereço fixo. Dormiam embaixo dos bancos, onde ficavam mais protegidos contra o vento, a chuva e o sereno. Pela manhã, já acordavam atordoados no meio do povo que passava, indo e vindo do trabalho. O olhar triste e pidonho às vezes garantia um resto de lanche para o café. Depois, ficavam o dia todo por ali, tomando sol, observando, caminhando vagarosamente pelas mesmas calçadas como fossem donos do lugar. Às vezes brigavam, às vezes brincavam. Quando estavam entediados, inventavam passatempos simples, irritavam um ao outro, rolavam pela grama como duas crianças, com uma felicidade ingênua que os passantes invejavam. Banho, só quando o céu permitia.

A lealdade entre os dois era o que mais admirava. Alguns vizinhos comentavam “outro dia dei um pedaço de pão e ele não comeu enquanto ela não chegou”. Outros ficavam comovidos “se eu pudesse, adotava os dois”. A maioria dizia “já estão habituados com a rua”. Durante uma semana que fez frio além do normal, Preta ficou muito doente, quase pra morrer. Preto não saiu de seu lado, vigiou noite e dia. Às vezes chorava alto, entristecido, parecendo adoecer também. Os conhecidos trouxeram água, remédio, papinha. Alguns comentaram sobre levar a coitada para o hospital da faculdade, mas a iniciativa morreu sem sair da conversa. Tudo bem, não fez falta. Preta se recuperou sozinha, era forte, o organismo estava acostumado a reagir.

A sorte não sorriu da segunda vez. A história dos dois acabou repentina. Pouco tempo depois, perto do feriado de Natal, quando o trânsito estava mais intenso, Preta foi atravessar a rua e não viu o perigo. Um carro em alta velocidade atropelou a pobrezinha e não prestou socorro. A bichinha agonizou por alguns minutos e morreu. Preto, leal como sempre, mordeu a pata da amiga e com dificuldade a arrastou para a praça, a casa que os dois conheciam. Não havia mais nada a ser feito. Algumas velhinhas choraram ao ver a agonia do cachorro que uivava de lamento e dor. Parecia ter sido ele o atropelado. Ficou ali, horas e horas, ganindo e velando a amiga, até que alguém veio e enterrou a cadela perto das árvores. Preto continua sendo um vagabundo de rua, mas não brinca mais. Alguns dizem que, desse jeito, vai morrer logo, logo.

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*Viviane de Freitas é uma pessoa que escreve para sobreviver. Especializada em literatura pela PUC-SP, é formada em jornalismo e cursa mestrado em Divulgação Científica e Cultural na Unicamp. Tenta ser escritora no blog https://vivianedefreitas.wordpress.com/

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