APRENDER A MORAR NA CIDADE – ENTREVISTA COM JOSÉ ARMÊNIO BRITO (IAB-SP)

brito

Por Natália Garcia do Blog Cidades para Pessoas – publicado originalmente aqui

“A arquitetura não deve ser um instrumento de ego, mas de qualidade de vida”. É o que defende o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil em São Paulo (IAB/SP) José Armênio de Brito Cruz. Na entrevista abaixo ele conta como era sua relação com a cidade desde os tempos de escola, no Dante Alighieri (de 1967 a 1977), fala sobre os aprendizados da X Bienal de Arquitetura e defende a existência de uma disciplina escolar sobre viver na cidade. Essa entrevista foi publicada na revista Dante Cultural.

Como o senhor ia para a escola e qual era a sua relação com a cidade ao longo do caminho?

Eu morava entre os bairros do Brooklin e do Campo Belo, a uns 17 quilômetros da escola. Quando pequeno, ia de carro com minha mãe ou de carona. Quando fiquei maior pegava dois ônibus. Na volta para, passava pela avenida 9 de Julho, depois pela Santo Amaro e ainda andava um quilômetro para chegar até minha casa. Nesse caminho, eu ia observando a cidade e fui registrando sua evolução. Eu vivi uma das últimas linhas do bonde, em 1967. Vi o nosso bairro começar a ser transformado pelo shopping Ibirapuera, quando todas as casinhas eram vendidas para serem transformadas em prédios maiores.

Se a arquitetura fosse uma disciplina escolar, o que se ensinaria para as crianças e adolescentes?

Olha, eu tive excelentes aulas de desenho. Tinha um professor que ensinava a desenhar a partir da geometria do círculo, meio círculo, corda, tangente e ângulo. Ele fazia arranjos florais e ninguém tinha coragem de apagar a lousa na aula seguinte. Com ele, eu aprendi a compreender a natureza a partir do desenho, que é função da geometria. Agora, eu acredito que o ensino nas escolas devia focar em uma crítica com relação ao mundo atual. Os jovens precisam aprender a morar na cidade. Claro que conhecimento não é um pacotinho fechado que você entrega a alguém, é uma crítica formulada, é uma aproximação com relação à história. Mas acredito que entregar determinados instrumentos para o jovem ajuda ele a pensar em como ele influencia a cidade hoje e no futuro.

Então, talvez essa disciplina escolar não devesse ser exatamente arquitetura, né?

Pois é, deveria ser algo como “cultura urbana” ou “vida na cidade”. Por exemplo, as pessoas da minha geração estranham, mas hoje eu deixo o carro em casa e uso muito transporte público para vir trabalhar. Eu estava ouvindo uma música da minha época que diz assim: “A questão social/ Industrial/ Não permite e não quer/ que eu ande a pé/ na vitrine, um Mustang cor de sangue…”. Esse foi o início do culto ao automóvel como forma de afirmação, do qual nós fomos objeto. Mas é inviável pensarmos em uma cidade para o automóvel, a cidade precisa ser pensada para o transporte público. Isso é cultura urbana, essa seria uma das aulas. Seria interessante também visitar outras escolas, para desenvolver um pensamento crítico sobre o espaço físico da aprendizagem. Temos um arquiteto de escolas em São Paulo, o [João Batisca Vilanova] Artigas, que fez o prédio da FAU-USP com uma cobertura inteira, única. A ideia é que quando alguém entra lá, está em uma dinâmica diferente, está aprendendo. Uma vez o Artigas me disse “embaixo da cobertura da FAU, são todos Deuses”. Ele fez várias escolas com esse clima pedagógico, criativo e transformador. Vale a visita à escola Augusto de Campos também, que é de 1889. É bem interessante a história dessa escola. Antes de proclamada a república, a Praça da República era chamada largo dos Curros e seria o destino da catedral da cidade. Daí, com a proclamação da república, cancelaram o plano e resolveram colocar no local uma escola, dizendo que a base da nova república seria a ciência e a razão. Seria interessante fazer essas visitas para entender as razões de como e por que a cidade cresceu. Nós, cidadãos, não somos vítimas da cidade. A gente faz a cidade que a gente quer. E se a cidade está assim é porque a gente quer.

Pensando em que cidade queremos, o senhor costuma dizer que os condomínios fechados pioram a segurança, porque segregam pessoas. No entanto, essa é a lógica que parece dominar grande parte dos grandes empreendimentos. Como se muda essa lógica?

Ninguém assume que segue a escola dos condomínios. Na academia, eu nunca vi ninguém defender um condomínio fechado. Já ouvi apelos de marketing “aqui vc terá vida linda e alegre, seus filhos vão poder correr sem carro atropelando e sem bandidos”. O que acontece no condomínio fechado é uma estratégia cruel e cabe voltar à história. O Brasil é um país colonizado. Historicamente colonizado. Vieram os portugueses, depois os ingleses, holandeses em escala menor, mais tarde assumiram os americanos numa forma mais sofisticada. O Brasil nunca deixou de ser um país colonizado. Hoje o Brasil é colonizado por si mesmo. O colonizado introjetou a ação do colonizador e repete aqui no mesmo território a atitude do colonizador. Quando se fala “o bom é ir para Miami ou para Paris”, se está aqui de passagem. Mas essa terra é de quem está aqui e não tem planos de ir a Miami nem a Paris. Aqui tem que ser bom. Aqui tem que ser o objeto da melhor técnica, da melhor solução. Precisamos de qualidade de espaço público, infraestrutura em transporte, água, esgoto, elétrica, habitação, ou seja, cumprir a agenda do século 19. O estado não cumpriu seu papel nesse desenvolvimento. E tudo hoje é urgente. O Brasil está virando a terra das urgências. É isso que gera o condomínio fechado. Só que essa lógica de privatização do território é antinacional. É o brasileiro colonizando o Brasil, como se ele fosse embora em algum momento. Eu não vou embora. O país que eu escolhi pra morar é esse, onde eu nasci. E não é fechado, no intramuros, que se resolve, porque aí o espelho negativo vira a rua e a violência vai para lá. O condomínio diz “você fora, você dentro”. De quem é o país? É dos dois! A água é de quem? De quem está dentro do condomínio ou de quem está fora? Com essa seca, vai acabar para os dois!

Ou seja, em vez de segregar, é preciso aprender a conviver entre diferentes?

Exatamente. É isso que faz uma sociedade plural e, inclusive, rica. Existe um estudo do [cientista político e escritor de diversos livros sobre urbanismo] Richard Florida que relaciona o índice de pluralidade da sociedade e a renda. Não é à toa que o Vale do Silício aconteceu na Califórnia. É a condição democrática e a pluralidade que permitiu que a economia de ponta se desenvolvesse lá, porque é onde as cabeças estão abertas. Você fica doente quando só fica com iguais. Eu me sinto muito bem andando aqui [no centro], onde tem todos os tipos de pessoa. Essa é a cidade rica sob o ponto de vista econômico, cultural, social e histórico. A cidade precisa ter densidade, transporte público, distribuição de emprego e renda, isso é uma questão econômica e social, e a forma como tudo isso é feita é o que o arquiteto pensa. Por exemplo: será que a rua tem que ser só muro? Será que queremos essa visão de cidade “monofuncional” – aqui é morar, aqui é trabalhar, aqui é lazer – ou será que essa vivência no centro não é mais rica? Aqui é possível morar, estudar e trabalhar a 30 metros de distância entre uma coisa e outra. Isso é sabido desde o início do século 20, mas o Brasil não cumpriu nem a agenda de bem-estar social do século 19. E agora nós estamos na globalização.

É ótimo tocar nesse ponto da globalização, uma era em que estamos mais conectados do que nunca. Como presidente do IAB-SP, o senhor esteve à frente da 10a. Bienal de Arquitetura, que teve como tema “a cidade: modos de usar e modos de fazer” e um processo de atividades em rede bem diferente das bienais anteriores, que só foi possível graças a essa hiperconectividade. O que o senhor acha que São Paulo aprendeu tanto no processo quanto com o conteúdo dessa Bienal?

Quando organizamos a 10a. Bienal de Arquitetura, escolhemos como tema “modos de usar, modos de fazer” porque usar também é fazer a cidade. Na hora que eu deixo o meu carro em casa eu estou fazendo uma cidade nova. Há uma relação dialética entre essas duas coisas. Trata-se de fazer escolhas. Por exemplo, Manhatan é uma cidade símbolo do consumo, mas lá os shopping center são proibidos, porque eles sabem que um shopping vai ser prejudicial à cidade. Outro dia eu estava de taxi na W3, projetada por Oscar Niemeyer para ser uma via comercial na cidade de Brasília, mas que está completamente decadente. Perguntei ao taxista o porquê daquela degradação e ele me explicou que era por causa do shopping no fim da rua. O shopping sugou todo o potencial comercial e largou a rua lá. Isso é cidades modos de usar e modos de fazer. É uma questão da sociedade como um todo tomar isso nas mãos porque a sociedade não é vítima da cidade. Se a cidade é assim, é porque a sociedade quis assim. Acho que essa mensagem foi dada na Bienal. Já existiam coletivos de jovens pensando novas cidades, tentamos turbinar essa ação dos coletivos em atrações espalhadas pela cidade. Eu acho que o pensamento social em torno de que cidade queremos vai se sedimentando e essa Bienal serviu isso.

O escritor moçambicano Mia Couto diz que “a janela é a casa a querer ser o mundo”. Qual é o mundo que as janelas de São Paulo enquadram? 

A maravilha da capacidade do que o homem pode construir é o que as janelas de São Paulo mostram. A cidade é uma obra humana. É a coisa mais incrível que existe no mundo, na minha opinião. Porque, se você pensar, fazer uma máquina gigantesca dessa funcionar, mal ou bem, é incrível. São milhares de canos, fios, esgotos, engrenagens, é um engenho, como o carro, o foguete… só que é um engenho que depende de todos, de você, de mim, é uma obra coletiva. As janelas de São Paulo visualizam a grandeza da obra que o homem pode fazer. A arquitetura se aproxima muito da música no vazio e cheio, ocupado e não ocupado, com o espectador dentro da obra. Essa dinâmica é o que as janelas mostram. Agora, existe janela que vê violência, muro, a incompatibilidade com o diferente. Infelizmente existe. Para melhorar esse mundo enquadrado por essas janelas, não faltam recursos, faltam projetos. É preciso definir qual o projeto do Estado brasileiro para as cidades brasileiras. Por isso minha preocupação atual não é quem será nosso próximo presidente, mas qual será o nosso próximo Ministério das Cidades. A cidade é hoje um tema no mundo e um tema urgente no Brasil. A visão da arquitetura como um instrumento de ego, de talentos ou pseudo-talentos, está equivocada. A arquitetura deve ser um instrumento de qualidade de vida e o arquiteto precisa assumir seu papel e ajudar a cidade a se desenvolver.

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