Star Wars Day em São Caetano

Todo ano, o dia 4 de maio não passa despercebido. É nessa data que os aficcionados do mundo inteiro comemoram o Dia Star Wars, um feriado informal que nasceu de um trocadilho da frase mais emblemática da série: “May the force be with you”, que em português significa ‘Que a força esteja com você’. Acontece que a data 4 de maio em inglês é “May the fourth”, e não por acaso deu origem à data comemorativa.

No Twitter, as hashtags #maythe4thbewithyou e #starwarsday estão entre as mais comentadas por fãs que aproveitam a data para discutir fatos curiosos sobre os filmes da série.

Em São Caetano vai rolar o evento Star Wars Day para celebrar a saga em São Caetano, no sábado (5). No encontro, promovido pela Orla Exterior – Star Wars Fã Clube ABC, vai ter estandes e fãs fantasiados como os personagens dos filmes, além de apresentações, palestras, exposições, bate-papos, jogos, vídeos, sorteios e até mesmo batalhas de sabre de luz. O Star Wars Day vem inspirado em convenções de São Paulo, como a anual Jedicon, que chega a reunir até 2 mil pessoas.

Guerra nas Estrelas e o poder do mito

Sabia que George Lucas se inspirou nos estudos de um antropólogo para criar a saga de Guerras nas Estrelas? Joseph Campbell foi o maior pesquisador de mitos e do papel da mitologia de sua época. Confira aqui trechos de uma entrevista do antropólogo ao jornalista Bill Moyers para a série Joseph Campbell e o poder do mito, veiculada em 1986, pela TV Public Broadcasting System (PBS).

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O antropólogo Joseph Campbell realizou um estudo detalhado sobre a presença da mitologia no universo humano e chegou a interessantes conclusões: Todas as narrativas, conscientes ou não, surgem de antigos padrões do mito e todas as histórias podem ser traduzidas e dissecadas na Jornada do Herói. Em seus estudos sobre mitos mundiais, ele descobriu que todos eles são a mesma história, porém contadas com inúmeras variações e adaptadas à realidade de quem a conta. Seus detalhes são diferentes em cada cultura, mas, fundamentalmente, são sempre iguais. Ainda declara Campbell, “… toda cultura antiga e pré-moderna utilizava uma técnica ritmada para contar histórias retratando os protagonistas e antagonistas com certas motivações e traços de personalidade constantes, num padrão que transcende as fronteiras da língua e da cultura”.

Pela grande influência das culturas do entretenimento e do consumo, junto com os avanços científico e tecnológico da raça humana, os mitos tiveram sua importância significativamente reduzida, uma vez que a cultura moderna colocou sua fé na ciência e na religião. Conseqüentemente, por vários séculos o surgimento de novos mitos foi praticamente nulo. Porém, com a remodelagem do cinema em produções ricas e com grandes efeitos visuais, os mitos novamente ganharam seu espaço, agora não contados de pai para filho como acontecia antigamente, mas através de meios audiovisuais, e difundidos ao redor do mundo.

No final dos anos 70, um jovem cineasta americano, admirador de Joseph Campbell, resolveu criar uma nova mitologia, que pertencesse ao mundo em que vive e, com elementos do seu tempo. Esse cineasta chamava-se George Lucas, conhecido hoje por inúmeros filmes de sucesso, mas, principalmente, pela concepção da trilogia de Guerra nas Estrelas (Star Wars), que apresenta elementos estudados e escritos por Campbell, em sua obra O Herói de Mil Faces. Então, qual a razão do grande sucesso de bilheteria causado pelo filme na época em que foi lançado? A razão foi a composição da história e dos personagens da história, repletos de simbologia e ligações com aspectos psicológicos. Temos a presença do herói, que Campbell cita em sua obra, seguindo sua jornada, no início do filme na etapa denominada Chamado à Aventura e termina na Ressurreição e na volta com o Elixir, etapas são detalhadas no livro.

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CAMPBELL: Ouvi jovenzinhos usando alguns dos termos de George Lucas: “a Força” e “o lado negro”. Deve estar batendo com alguma coisa. E uma boa maneira de ensinar, eu diria.

MOYERS: Penso que isso em parte explica o sucesso de Star Wars. Não foi apenas a qualidade da produção que fez dele um filme tão atraente, é, também, que ele chegou num momento em que as pessoas tinham necessidade de ver, em imagens assimiláveis, o embate entre o bem e o mal. Todos precisavam que o idealismo lhes fosse lembrado, todos queriam ver uma história baseada em desprendimento, não em egoísmo.

CAMPBELL: O fato de o poder do mal não estar identificado com nenhuma nação específica, nesta terra, significa que você tem aí um poder abstrato, que representa um princípio, não uma situação histórica específica. A história do filme tem a ver com uma operação de princípios, não com esta nação contra aquela. As máscaras de monstros, usadas pelos atores de Star Wars, representam a verdadeira força monstruosa, no mundo moderno. Quando a máscara de Darth Vader é retirada, você vê um rosto informe, de alguém que não se desenvolveu como indivíduo humano. O que se vê é uma espécie de fase indiferenciada, estranha e digna de pena.

MOYERS: Qual é o significado disso?

CAMPBELL: Darth Vader não desenvolveu a própria humanidade. É um robô. É um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você conseguirá utilizar-se dele para atingir propósitos humanos? Como se relacionar com o sistema de modo a não o ficar servindo compulsivamente? O que é preciso é aprender a viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros seres humanos. Isso é o que vale, e pode ser feito.

MOYERS: Como?

CAMPBELL: Mantendo se fiel aos seus próprios ideais, como Luke Skywalker, rejeitando as exigências impessoais com que o sistema o pressiona.

MOYERS: Quando levei meus dois filhos para ver Star Wars, eles reagiram com entusiasmo, como toda a platéia, quando, no clímax da última luta, a voz de Ben Kenobi diz a Skywalker: “Desligue o seu computador, desligue a máquina e seja você mesmo, siga seus sentimentos, confie em seus sentimentos”. Ao fazê-lo, é bem sucedido, e a platéia prorrompe em aplausos.

CAMPBELL: Bem, como você vê, o filme comunica. É concebido numa linguagem que fala aos jovens, e isso é o que conta. Ele pergunta: Você será uma pessoa de coração, verdadeiramente humana – porque é daí que a vida provém, do coração , ou será aquilo que o chamado “poder intencional” parece exigir de você? Ao dizer: “Que a Força esteja com você”, Ben Kenobi está falando do poder e da energia da vida, não de intenções políticas programadas.

MOYERS: Fiquei intrigado com a definição da Força. Ben Kenobi diz: “A Força é um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ela nos circunda, nos penetra, mantém a galáxia unida”. E li descrições semelhantes em O herói de mil faces, falando do umbigo do mundo, do lugar sagrado, do poder que se irradia no momento da criação.

CAMPBELL: Sim, é claro, a Força brota de dentro. Mas a força do Império se baseia na intenção de conquistar e comandar. Guerra nas estrelas não é apenas uma história de moralidade, o filme tem a ver com os poderes da vida, conforme sejam plenamente realizados ou cerceados e suprimidos pela ação do homem.

MOYERS: Depois que meu filho mais novo tinha assistido a Star Wars pela décima segunda ou décima terceira vez, perguntei lhe: “Por que você repete isso tantas vezes?”, e ele respondeu: “Pela mesma razão por que você passou toda a sua vida lendo o Velho Testamento”. Ele estava em outro mundo mítico.

CAMPBELL: Star Wars certamente possui uma perspectiva mitológica válida. O filme encara o Estado como uma máquina e pergunta: “A máquina vai esmagar a humanidade ou vai colocar se a seu serviço?” A humanidade não provém da máquina mas da terra. O que vejo em Star Wars é o mesmo problema que o Fausto nos coloca: Mefistófeles, o homem máquina, pode nos prover de todos os meios e está igualmente apto a determinar as finalidades da vida. Mas a peculiaridade de Fausto, que o qualifica para ser salvo, é que ele busca finalidades diferentes das da máquina. Ora, quando tira a máscara de seu pai, Luke Skywalker cancela o papel de máquina que o pai tinha desempenhado. O pai era o uniforme. Isso é poder, o papel do Estado.

MOYERS: Existe algo de mitológico, também, no fato de o herói ser ajudado por um estranho, que aparece e lhe dá um instrumento…

CAMPBELL: Ele lhe dá não só um instrumento físico, mas um compromisso psicológico e um centro psicológico. O compromisso ultrapassa o mero sistema de intenções. Você e o acontecimento se tornam uma coisa só.

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