1º de maio para o que mesmo?

Pouca gente lembra que o 1º de maio é uma data para o trabalhador refletir sua condição e lutar por melhorias. Mas o que se vê por aqui, e o que a mídia faz questão de mostrar, são as multidões comemorando sabe-se lá o que em shows de artistas como Luan Santana, Zezé di Camargo, e vários outros. São Bernardo reuniu 100 mil pessoas em um evento desse tipo no começo da semana.

Ok comemorar o relativo aumento do poder aquisitivo de grande parte dos trabalhadores brasileiros, um merecido dia de descanso, mas ficar acomodado nisso é alienação de quem tem muito ainda o que cobrar do Estado e do mercado. Afinal, enquanto o custo de vida sobe a galope, o salário continua o mesmo… Os serviços públicos básicos (educação, saúde, segurança, transporte etc) seguem inaceitáveis. Já os serviços privados vão de mal a pior, mas aproveitam a vantagem sobre o serviço que o Estado deveria garantir para extorquir o cidadão que não quer morrer no corredor de um hospital público ou chegar à 5ª série analfabeto.

Diante de um cenário crítico como esse o que fazer? Jogar a toalha e deixar a próxima geração resolver o problema? Se eles se inspirarem em nós, com essa atitude, o mundo está perdido, não é mesmo?

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Um bom exemplo do que verdadeiramente motiva o Dia Mundial do Trabalhador foi dado, quem diria, pela população norte-americana, que fez renascer o movimento Occupy Wall Street, como relata o portal Opera Mundi:

“Apesar de ser o berço do Dia do Trabalho, os Estados Unidos não têm a tradição de baixar as portas do comércio, nem fechar fábricas e escolas, como ocorre em quase todo o mundo. Ontem, porém, os manifestantes do movimento Occupy Wall Street mudaram este cenário, confiantes no lema que disseminam desde o ano passado: ‘Nós somos os 99% e podemos mudar o mundo’.

Após uma pausa devido ao rigoroso inverno no hemisfério norte, o movimento que protesta contra o sistema financeiro internacional e se espalhou pelo globo em 2011 voltou à ativa neste 1º de maio, com uma manifestação sem precedentesem Nova York.

O recado já havia sido dado: não ao consumo, ao trabalho, à escola. E eles cumpriram o que prometeram. Jovens, famílias inteiras com bebês de colo, idosos, mendigos, hipsters e engravatados ocuparam as ruas de Manhattan pacificamente, com guitarras, violões, bandeiras, cartazes, discursos, canções e gritos de protesto no simbólico ‘feriado’.

O movimento, que foi alvo de uma articulada repressão por parte da polícia norte-americana – que evacuou todos os ocupantes de suas bases, proibindo-os de ali voltarem a acampar – renasceu. Cartões-postais, como a 5ª Avenida e a ponte de Williamsburg, foram ocupados”.

E vem mais por aí: entre 12 a15 de maio uma grande mobilização irá tomar a Europa que sofre com o agravante de uma situação econômica ainda pior que nos Estados Unidos. Puxada pelos “indignados” espanhóis, que inspiraram o Occupy Wall Street, a Europa promete fazer muito barulho.

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A manifestação autodenominada “apolítica” do Occupy em última instância precisará se politizar para conquistar mudanças reais, mas ainda assim é um passo importante na mobilização por melhorias nas condições de trabalho e na qualidade de vida…viver está ficando muito caro em todos os lugares do mundo e, ao que tudo indica, ocupar efetivamente as cidades e seus espaços é a forma mais direta de exercer a cidadania.

É o que fala o geógrafo David Harvey, renomado professor da City University of New York (CUNY) quando afirma que o espaço público das cidades não é verdadeiramente aberto ao público. Quer dizer, não existe algo semelhante a uma Ágora ateniense nas cidades. Para se fazer discussões políticas em espaços públicos é preciso protocolar permissões, protestos são vistos como ações ilegais. Isso mostra a importância de pessoas ocuparem fisicamente esses espaços para  tornar o desejo de mudança algo mais concreto.

Confira trechos da entrevista concedida por David Harvey ao programa Democracy Now e veja como a situação de uma cidade como Nova York, em termo relativos, é parecida com a realidade da sua própria cidade:

“Olhe para a situação. Os 1% da cidade de Nova York ganham – em retorno de impostos, algo como 3,75 milhões de dólares por ano,em média. Metadeda população da cidade de Nova York está tentando viver com com 30 mil dólares por ano. Isto é, os níveis de desigualdade na cidade são absolutamente assombrosos, e estão crescendo imensamente desde os anos 1970”.

“Quem domina a vida urbana? Quem comanda das decisões? Bem, é o 1%. Assim, eu penso que o Ocupe Wall Street e o resto estão dizendo que nós só temos uma forma de poder, que é o poder do povo nas ruas, das ações nas ruas. Nós não temos o poder de dominar a mídia. Não temos o poder do dinheiro, de comandar a política. E esta é a situação em que estamos.”

“O Ocupe Wall Street realmente se tornou algo. A coisa tocou um acorde. E eu penso que o acorde que o movimento tocou é, de fato, medido pela velocidade e virulência dos movimentos repressivos acionados. Então, eu penso que está começando a ser escutado.”

“Muito dos parques se tornaram canteiros de flores, de modo que temos grandes lugares para a mistura de tulipas, mas não temos um lugar em que o povo possa se reunir. E assim, uma das coisa que estamos tentando fazer não só neste 1° de maio é dispor de lugares para nos reunirmos, de espaços em que possamos ter discussão política e nos quais se tenha diálogo político aberto.”

Confira aqui o video da entrevista (sem legenda) e leia a transcrição em português aqui.

Contribuiu para essa matéria Ana Yumi Kajiki

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