Preconceito – A história da “crioula safada”

Jean Wyllys é deputado federal pelo PSOL-RJ e integrante da frente parlamentar em defesa dos direitos LGBT. Ele também é colunista da revista Carta Capital onde publica artigos sobre temas indispensáveis de serem lidos. Conheçam a história de dona Dirce, negra e impedida de viver sua paixão pelo homem que ama.

*

Recebo diariamente cerca de 500 emails e correspondências de colaboradores, admiradores e críticos do mandato. Ocasionalmente, alguns emails vêm em forma de desabafos de pessoas que sentem que, por uma acaso do destino, receberam uma carta menos favorecida.

São de pessoas que sofreram e sofrem preconceitos por não se encaixarem naqueles moldes que a sociedade impôs ao longo de sua História. São de minorias que incluem mulheres, afrodescendentes, LGBTs, indígenas, portadores de necessidades especiais, pessoas que se consideram longe do padrão “normal” de beleza, etc. São de pessoas insatisfeitas com a corrupção e a maneira torta de fazer política em nosso país. São de trabalhadores e trabalhadoras brasileiras que se sentem representados pelo meu mandato.

Algumas destas cartas, complexas em conteúdo de história e de vida, são tão emocionantes que merecem ser replicadas. É o caso da história de dona Dirce, de Penápolis, SP. Aos 77 anos de vida, dona Dirce sentiu na pele a dor de não poder viver um amor correspondido por ser algo “antinatural e contrário à lei de Deus”. Isto há meros 60 anos. Pouco mais de meio século… Proibida de viver sua paixão por um homem branco, a “crioula safada” – como dona Dirce foi chamada pelos pais do grande amor de sua vida – foi vítima de uma sociedade intolerante cujo fundamentalismo religioso avança cada vez mais, violando liberdades individuais e direitos de minorias pelo “bem da humanidade”.

Dona Dirce, que, como eu, acredita que a diversidade étnica, sexual, cultural e religiosa, entre outras, são fundamentais para a construção de um Estado Laico e Democrático de Direito de fato, viu em sua história de sua vida – sofrida, porém vitoriosa – um ponto em comum com aqueles que lutam e entendem o casamento igualitário como um direito civil e humano que deve ser estendido a todos e todas cidadãs do mundo. Pessoas que sonham e acreditam que algum dia ainda poderão viver em um mundo “verdadeiramente livre, em que cada um possa expressar livremente sua cultura, seu jeito, seus traços africanos ou seu amor, seja ele de qual orientação”. Ainda nas palavras da dona Dirce: “como ninguém me sentenciou à morte ainda tenho o direito de sonhar”.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s